quinta-feira, 11 de junho de 2009

O desastre que não terminou


Aos 4 anos, ele foi tirado da casa dos pais pela janela para não ver o cadáver da avó, que caíra vítima de enfarte fulminante.O terror daquela morte não presenciada o levaria, anos depois, ao curso de medicina da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. E o faria trocar o departamento de gastroenterologia do Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo, pela psiquiatria e a psicologia.

Aos 66 anos, Sergio Perazzo é professor da Sociedade de Psicodrama de São Paulo e autor de Descansem em Paz os nossos Mortos dentro de Mim, livro pioneiro no Brasil sobre o processo de luto. Em sua atividade clínica, atendeu parentes das vítimas do Fokker 100 da TAM que caiu em São Paulo em 1996. E enfrentou a tragédia pessoal do suicídio do irmão.

A seguir, Perazzo fala do acidente com o Airbus da Air France em que 228 pessoas simplesmente desapareceram. E diz que a dúvida sobre as causas do desastre pode prolongar o luto e a dor de suas famílias.

O impacto

"Quando uma tragédia como a do avião da Air France acontece, é a concretização de um medo que todos temos: o de estar amarrado a uma poltrona, impotente diante da iminência da morte. Não adianta dizer que a porcentagem de desastres aéreos é muito menor que a dos acidentes de trânsito. Afinal, morreram 228 pessoas de uma só vez. Lembro de um amigo que dizia: ‘Estatística é se afogar em um rio com profundidade média de 50 centímetros’. O fato de a Air France ter disponibilizado uma equipe de psicólogos e psiquiatras para cuidar das famílias é um avanço. Primeiro, é preciso acolher as pessoas. Não é dizer: ‘Seja forte, reaja’. Mas deixar que a pessoa chore, expresse sua dor.

A ausência

"O desaparecimento dos corpos e a dúvida sobre as causas da tragédia são um elemento complicador do luto. A família precisa da prova concreta da morte dessa pessoa. As situações em que o corpo desaparece, se desintegra, são muito difíceis de trabalhar. E a tendência é o luto se prolongar. É o drama vivido até hoje pelas famílias de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil.

Negar até a morte

"A morte súbita em acidente aéreo ou em um assalto - outra situação com que me defrontei várias vezes na clínica - contraria o que esperamos da vida. Deixa frases por dizer, declarações de amor nunca feitas, gestos perdidos para sempre. Daí a inconformidade diante desses acontecimentos. Veja a morte de Carlos Gardel, também em um acidente de avião: seus fãs, durante anos, alimentaram a expectativa de que ele reapareceria, cantando. O mesmo ocorreu o mito Elvis Presley, também morto repentinamente.

Longe de casa

"Quem melhor estudou o comportamento do homem diante da morte foi o historiador francês Philippe Ariès. Ele mostra que transformações intensas na forma de lidar com a morte aconteceram no século 20. Os rituais de morte se afrouxaram e os moribundos foram afastados do convívio familiar. Antes da 2ª Guerra Mundial, em Nova York, menos de 25% das pessoas morriam internadas nos hospitais. Depois da guerra, esse número subiu para 75%. Hoje, diante da velocidade da vida moderna, é cada vez mais complicado lidar adequadamente com a doença e a morte.

O enterro dos outros

"Quando me formei na UFRJ, saíamos para fazer atendimento de ambulância, o que se chama de resgate hoje. Uma das maiores dificuldades que tínhamos era afastar os curiosos para colocar a vítima dentro do carro. As pessoas ficavam literalmente debruçadas sobre o acidentado. Eu era obrigado a entrar antes na ambulância, sentar no banquinho ao lado da maca e, naquele calor do Rio de Janeiro, fechar todas as janelas. Senão, enfiavam a cabeça lá dentro para ver o que estava acontecendo. É algo que também se manifesta na morte de ídolos populares, como Ayrton Senna, Elis Regina e Tancredo Neves. Na minha infância, vi três enterros impressionantes, que marcaram época no Rio de Janeiro: o de Francisco Alves, Carmen Miranda e Getúlio Vargas. A cidade parou para ver os cortejos. Isso se explica, em parte, pelo peso histórico de quem morre, mas é também um deslocamento: a catarse da emoção de quem não chorou seus mortos como deveria e a transfere para um defunto público.

Química contra a dor

A última lista de antidepressivos que consultei tinha 87 produtos diferentes. Nenhum médico pode ser contra a medicação, como eu não sou. Mas ela tem que ser ministrada o mínimo possível, dentro de um diagnóstico apropriado. Eu não daria antidepressivo para uma pessoa que acaba de perder um parente. Porque estar deprimido é normal nessa circunstância. Claro que, em situações de luto prolongado - com duração de mais de um ano, ou mais - o uso pode ser considerado, para reduzir a crise enquanto se trabalha o luto na psicoterapia.

Passageiros da agonia

"Já tratei de parentes que perderam pessoas em acidentes aéreos, como o do avião da TAM em 1996. Naquela ocasião, como vários corpos foram recuperados, a parte mais traumática para os familiares era o reconhecimento. É uma imagem que a pessoa não apaga mais. Vivi essa situação pessoalmente quando meu irmão mais novo se suicidou pulando do sétimo andar do prédio onde morava. Fiquei dois anos sem conseguir colocar os pés na minha varanda porque a visão de meu irmão morto me vinha à cabeça. Isso me ajudou a entender o que sente uma pessoa nessa situação e sempre me auxilia na prática clínica.

A caixa-preta

"Nós sempre procuramos um culpado. Quando a morte se dá no hospital, a primeira coisa que se pensa é em erro médico. Filhos que perdem o pai se angustiam por não terem dado atenção ao mal-estar que ele sentiu dias antes. Ou o sujeito que sofre um acidente ao lado de alguém sem cinto de segurança culpa-se por não ter insistido para que ele o usasse. Quando meu irmão morreu, pensei: ‘Se tivesse visto que ele estava deprimido, podia tê-lo ajudado’. Mas é preciso aceitar que a morte existe para todos e ninguém é Deus para evitá-la. Em um acidente aéreo, não é diferente: a gente fica procurando a caixa-preta que vai explicar os fatos e nos isentar de toda culpa.

Superação

"Há alguns sinais. A pessoa volta a sorrir, é capaz de falar do morto sem sofrimento e até de contar uma história divertida que aconteceu com ele. É quando a morte vira história incorporada. Não é um processo de esquecimento da pessoa perdida. Muito pelo contrário: é a absorção de sua lembrança, que encontra lugar na história de vida de quem o perdeu. Quando meu irmão se matou, minha mulher e eu dissemos para a nossa filha pequena que ele havia morrido de enfarte. Passamos muito tempo sem tocar no assunto. Um dia, estávamos jantando e, por uma razão qualquer, mencionei seu nome. Então, minha filha falou: ‘Ah, sei, o tio Nando, né?’ E fez com os dedos o gesto de um bonequinho se atirando da mesa para o chão. Ela sabia. Foi a primeira vez que ri do suicídio do meu irmão. A partir daí, pude voltar à varanda que me aterrorizava. Entendi que tinha completado o luto naquele momento."

Ivan Marsiglia

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